El Nuevo Gordon
Entrava de quatro na cozinha, batendo como um animal debilóide as mãos grossas no chão, sem nenhuma sensualidade, atrás de um grilo já desgraçado, puxando uma das perninhas esmagadas
Olhava como um Picasso para as paredes sujas de gordura
até quase o teto
Via numa das paredes um empoeirado "relógio de controle"
Não via as horas
Sentia fome, e punha-se de pé
Corria eletronicamente até a pia
E ficava com os dedos imundos de capivara
procurando pedacinhos de couve picada
sobre a tábua de carne.
Gordon! Tire suas patas daí!
Sentia-me confuso
Tudo era gostoso e incompreensível
Afastava-me, então, bailando bestamente o olhar pelas prateleiras
cheias de cristais e bibelôs
(On Beautiful Dreams House)
Pegava na gaveta de um móvel escuro e encerado
um carretel de linha vazio
e o rolava por entre o vaso
e um elefantinho de louça
que, com olhinhos asiáticos
parecia seguir o movimento de suas mãos
Gordon! Você vai quebrá-lo!
Gritava da cozinha uma voz feminina, fina e rouca, muito engraçada como o som seco de uma velha máquina de costura Leonam, que havia no quarto.
Lá na escuridão, eu também penetrava. Ficava disfarçando o olhar numas lampadinhas verdes ao redor de uma imagem de N.Sra. Aparecida pendurada na parede. Evitava ver o pior...
"Gordon! Onde você está?"
"Ele deve estar embaixo da cama, Lou"
Não, Gordon. Hoje não passará aquele filme da Marlyn
Guarde sua brilhantina perfumada para mais tarde. A semana que vem, quem sabe"
OUTROS PORCOS CINEVISION PRESENTA...
Marlyn Bright em...
"Um Caso Preto"
Gordon vinha então correndo, e sentava com sua bundinha de vidro em meu colo, e ficava de olho na tela:
"What this, Marloul?"
"Je ne sais pas, Clark"
E...
Plinc!
Crackt pam!
Alguém jogava um bilhetinho amarrado em uma pedra através da vidraça;
Dizia o bilhete:
"Hey, hey, Gordon!
Seu babaca lunático!
Saia dessa.
Venha correr com a gente
pelos córregos
Venha correr com a gente
pelos córregos
atrás de marcas de cigarro...
Porto Ferreira On The Sky
15 de março 1963
ass. John Usfriend"
Mas Gordon não ia
Preferia ficar ali, atrás da porta da cozinha, observando pela fresta
as formas abstratas, que surgiam embaixo das agulhas de tricô
Toc-toc!
"Gordon está?"
"On, si, John, lá no banheiro..."
Logo, já não se podia nem defecar sossegado naquela casa...
..."Gordon!" daqui
..."Gordon!" de lá
Yes, ma / no, fa...
Si, ma / no, Jow...
E assim, entre tantos "Gordons" eu vim crescendo
mudando sempre o penteado
a cor das meias
o vocabulário cotidiano
...Os amigos
As garotas-sensation
...Agora estou aqui, "El Nuevo Gordon!"
...Mais magro
Mais pálido
Revirando as mesmas prateleiras
atrás de uma carreirinha de pó
sentado atrás de um quadro de mesa
observando as ondas nas unhas
as formas enigmáticas na ponta dos dedos...
..."Hey, hey, Nuevo Gordon!
Já estamos atrasados!
